Eu, Bataille e Sasha Grey
(foto: Sasha Grey by Terry Richardson para Penthouse Magazine)

Estava lendo uma entrevista com a premiada estrela pornô americana Sasha Grey e pensando sobre a atração que sempre tive pelo erotismo e todas suas manifestações. Sempre me interessei pelo poder transgressor do sexo em uma sociedade que sempre se mostrou incapaz de lidar com ele de forma plena e verdadeira sem mensagens duplas e hipócritas, principalmente no que diz respeito à sexualidade feminina. Então sempre fui a favor de pornografia (que é, sim, uma espécie de erotismo), sempre fui fã de quadrinhos eróticos como os do italiano Milo Manara, de escritores como o Bataille (que fez um tratado sobre o assunto, o livro “O Erotismo”) e de artistas como a Madonna, na fase do disco Erotica, e todas suas manifestações sexuais da época, indo além da rasa sensualidade que vemos por aí. Também sempre admirei Hugh Hefner, dono do império Playboy, com suas três namoradas, suas festinhas libertinas e sua visão de sexo aberta e com poucos limites.
Antes que me acusem de estar fugindo do assunto ao qual me propus falar, já digo que não: tudo isso tem muito a ver com o Erotismo, com o sagrado erotismo de que Bataille falou. Porque erotismo é a parte do sexo que de fato diz alguma coisa, que transcende o físico e atinge camadas mais profundas , perturba o psicológico, seja através da representação através da arte ou de manifestações tidas como mais baixas. Sensualidade pode ser algo bonito de se ver, mas o contato com o erotismo é diferente, faz tremer outras bases. Sexo é uma busca e pode ser uma bela forma de transgressão se vivida ou representada com verdade. Pena que poucas pessoas se dão conta disso e ficam com a versão mais básica e contida do assunto.
Isso me lembra Nietzsche que, em “O Nascimento da Tragédia”, falava da arte (no caso, arte grega) como antídoto contra a metafísica racional (e sua oposição entre essência e aparência), que para ele era incapaz de manifestar o mundo. No entanto na arte temos acesso às verdades de forma imediata, sem o filtro da razão, pois ela não está impregnada de conceito. Na arte a experiência da verdade (essência) se faz ligada à beleza – que é uma ilusão, uma aparência.
Sexo, para mim, é da ordem das coisas dionisíacas, como a arte. Uma forma imediata de entrar em contato com as questões fundamentais de uma existência, uma maneira de chegar mais próximo de alguma espécie verdade – verdade esta que muitas vezes buscamos, sem sucesso, através do pensamento científico e racional . Sexo é uma maneira afirmativa de se viver, por isso é uma energia que eu gosto de ter por perto, seja em vivências ou representações. Sexo, segundo Bataille, é uma maneira de ter uma experiência mística “sem Deus”, uma forma de buscar a continuidade humana através de algo que, longe de toda possibilidade de razão, por instantes desintegra o nosso eu. Não é a toa que os franceses chamam orgasmo de petit mort (pequena morte).
Enfim, pensamentos que me vieram à mente nessa madrugada, enquanto eu lia a entrevista de uma atriz pornô. No fundo, mesmo que em níveis diferentes, Sasha Grey, Madonna, Bataille, Nietzsche, Milo Manara e Hugh Hefner tem algo em comum.


22/01/2010 08:34:34
Carol Teixeira
Super obrigada Tatiane!!! beijos
30/01/2010 18:30:49
Tatiane
querida que tu é carol. leio teus textos e me identifico muito com tuas buscas e profundezas. te acho autêntica, e é bonito ver pessoas assim, originais, que buscam suas verdades.
29/01/2010 19:57:52
Tatiane
tatianearruda5@gmail.com
Muito Bom!
Carol... Adorei teus textos, encontrei teu blog por acaso e gostei muito.
Parabéns vc consegue escrever de uma forma que tuas palavras ficam gravadas na mente.
Abraço!
28/01/2010 08:30:43
Carol Teixeira
Valeu pelas dicas, Makely! Adorei.
beijos
23/01/2010 08:02:39
Carol Teixeira
Oi Helena! Claro que pode divulgar meu texto! :)Legal saber que pensamos de forma parecida, muito legal teu blog.
beijos
23/01/2010 08:00:16
Helena Saldanha
alushchesed@hotmail.com
adorei!
Oi Carol, tudo bem?
Adorei teu texto. Alias também me identifico com todo este pensar e todas estas possibilidades de transgressão. Por isso, criei o blog www.helenasaldanha.blogspot.com , chega de hipocrisia, mas também sei que a maioria não se relaciona bem com o assunto pois falta informação e coragem. Te sigo no twitter e somos amigas no facebook. Gostaria de saber se me autoriza a divulgar este teu texto e teu blog no meu e também no facebook.
beijo,
Helena.
23/01/2010 04:10:20
Makely
makelyka@yahoo.com.br
Oi Carol, essa sua concepção de sexo, erotismo e pornografia, que no fundo é mais ou menos a mesma coisa e só passou a ser compartimentada assim depois da era vitoriana, me lembrou a teoria das Mônadas no Banquete de Platão, que foi apropriada pelos românticos. Para o grego no entanto não há romantismo, há necessidade de união física, de restauração da unidade primordial. Você conhece a História da Literatura Erótica, do Alexandrian?

Bom, se você gosta do Manara, do Bataille e da Sacha Grey, provavelmente você gosta ou vai gostar de Pierre Louys, Pauline Reage, Apollinaire, Alfred Jarry, Horácio Altuña, Tinto Brass, Serpiere, Crepax. Esses pra mim são os melhores.
Beijos
22/01/2010 20:53:07
Miguel Rude
namarra_1@hormail.com
sasha
The Girlfriend Experience:
http://mondoguerra.blogspot.com/2009/04/girlfriend-experience.html
08/08/2010 20:22:12
Carol Teixeira
Valeu, Gutemberg!!
bjs
03/02/2010 16:25:13
Gutemberg Morais
exogut@hotmail.com
Adorei seu texto, sua abordagem. É ótimo ver comentários inteligentes na net. Além de ser super fã de sasha grey agora sou seu fã também kkkk.
beijos.
03/02/2010 07:24:30
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