My Way
“A Lagarta e Alice olharam-se por algum tempo em silêncio. Por fim, a Lagarta tirou o narguilé da boca e dirigiu-se a Alice com uma voz lânguida e sonolenta. ‘Quem é você?’, disse a Lagarta. Não era um começo de conversa muito estimulante. Alice respondeu um pouco tímida: ‘Eu...eu...no momento não sei, minha senhora...pelo menos sei quem eu era quando me levantei hoje de manhã, mas acho que devo ter mudado várias vezes desde então.’”
(trecho de ‘Alice no País das Maravilhas’)


Hoje acordei feliz. A vida continua igual, mas a lente mudou. Vou ter que citar aquela frase do Woody Allen que eu sempre cito: a vida só depende de como iremos distorcê-la. Eu devia ter isso escrito na parede da minha casa, é impressionante como se aplica perfeitamente a minha vida. Sei que se aplica à vida de todo mundo, mas especialmente a minha porque eu sou uma pessoa que distorce a vida (para o bem e para o mal) com uma freqüência espantosa, cada dia acordo com uma visão diferente e acredito que aquela lente é a real. Se a gente se desse conta de como a realidade é relativa, talvez fosse possível se manter mais tranquilo diante das diferentes fases da vida. E tranqüila é uma coisa que eu não sou – sou tudo menos tranqüila.
Estou com vinte e nove anos e meu último ano tem sido muito louco no sentido de percepção. Astrologicamente é porque esses dois anos que antecedem os trinta são considerados o Retorno de Saturno (fiz um longo post sobre isso aqui, dá um search aqui no título “A crise dos vinte e muitos anos”). Psicologicamente, a conclusão é óbvia: todo fim de década traz consigo alguma crise existencial. Mas o fato é que tenho sentido o tempo de maneira muito louca e diferente. Sinto como se estivesse sempre numa “correria”, inclusive vivo falando isso para as pessoas “estou numa correria!”, e a verdade é que a tal correria que eu sinto estar é muito mais a minha percepção do que a real – eu não estou tão sem tempo assim, mas me sinto sempre como se estivesse. Então às vezes me pego em um dia totalmente livre, sentada com uma cara de preocupada, como se estivesse muito ocupada. Não é louco isso?
Esses dias na análise (sim, sou uma mulher mega analisada há nove anos ) estava falando sobre isso com meu psiquiatra e chegamos à conclusão de que essa tal “falta de tempo” que eu sinto (e que não corresponde com a realidade) tem a ver com a proximidade dos 30 anos, que tem me assustado. Não por motivos fúteis, mas por uma certa pressão interna que eu mesma coloquei em mim. Quando eu tinha vinte sempre pensei nos meus trinta como meu auge: eu estaria mega bem sucedida, com mil realizações, uma mulher completa, uma ADULTA. E então lá pelo final dos vinte e sete eu comecei a tal crise numa corrida contra o tempo e a minha percepção sobre o tempo foi ficando cada vez mais distorcida. A tal correria é interna, é um questionamento incessante: será que eu me tornei a pessoa que eu queria ter me tornado? Será que em dezembro, quando eu fizer trinta estarei a tal mulher mega completa que eu tinha planejado?
E foi ontem de noite que caiu a ficha. Não sei se estarei completa (acho que nunca estaremos), mas certamente já me tornei a mulher que eu sempre quis ser – e isso inclui minhas freqüentes crises, confusões, dúvidas, altos e baixos. Gosto do caos que eu sou, gosto da minha multiplicidade e gosto das pontes que consegui criar com as pessoas que me rodeiam, que me rodearam, que me lêeem, as pessoas que eu amo, as pessoas que eu toco, as pessoas que tocam. Vivi tudo tão da minha maneira, sendo tão fiel às coisas que acredito, que só posso ficar feliz olhando para trás.
Ontem percebi isso.
E hoje acordei feliz com meu final de década. E não me senti em correria alguma.
O tempo voltou para seu lugar.


23/06/2009 20:33:00
Carol Teixeira
Que bom te encontrar por aqui, Gabi! Para variar, belíssimas palavras, né? :)
beijos, querida
31/07/2009 22:15:11
Gabi Fialho
gabriela@tj.rs.gov.br
Fazia horas que não te lia e é sempre uma surpresa. Comecei pelos posts mais recentes e concordo contigo de que é melhor ficar com a boca fechada quando o assunto é algum projeto novo. Aconteceu comigo recentemente, de abrir minha boca antes do tempo e o resultado foi óbvio: tropecei na mesma pedra, com o mesmo pé.
Agora lendo esse post, esse trecho da Alice eu também tenho guardadinho no meu caderno de anotar a vida. E também sinto essa noção louca desvairada de tempo, só não sabia como dizer - e tu disse. To precisando dar as mãos ao "mais histericamente histérico de mim", como escreveu o Fernando Pessoa, até porque, como ele mesmo disse, "tudo acaba em silêncio e poesia".
Beijoo!
31/07/2009 06:35:21
Camila
kmilabk@gmail.com
mais a Bru tá sempre atrasada mesmo... hahaaha

Acho que seu tu nao fosse esse teu 'caos' tu não seria essa mulher tão intensa e interessante que tu é!
As vezes são esses detalhes que algumas pessoas podem julgar como ruins, que fazem cada pessoa ser como é. :)


Eu estou beeem na correria agora, antes eu nao fazia nada de útil pra mim tá super dificil de me acostumar com o dia sempre cheio hahaha

;***
26/06/2009 16:58:02
Carol Teixeira
Oi Bruninha! Essa louca ansiedade do início dos vinte eu também tive, sabia? Cheguei até a escrever uma crônica chamada "A Crise dos vinte e poucos anos", acho que entrou no meu livro "Verdades & Mentiras". A coisa melhora muito pelos 24, 25 e volta a piorar pelos 28. Te prepara! haha
nós mulheres, vivemos em crise!
25/06/2009 09:46:49
Carol Teixeira
Obrigada Laurinha! Escrevi esse texto muito emocionada também, porque o escrevi justamente no momento que percebi aquelas coisas - foi tudo em tempo real. Gosto muito de dividir minhas coisas com vocês aqui. E adoro os comentários!
beijos
25/06/2009 09:43:45
Laura
laurinhagps@gmail.com
tive que comentar... Carol, que coisa mais emocionante esse último parágrafo.. me arrepiei toda! te admiro muito e desejo a tua mais pura felicidade!!!!beijão super carinhoso da tua fã com muito orgulho, La.
24/06/2009 19:26:03
Bruh
bruninha_tunber@hotmail.com
Só tu mesmo consegue explicar certas coisas carol... ou simplesmente jogá-las pra fora de uma maneira que não dói... ou dói demais.... parece que eu passo a vida a mil por hora, quero tudo ao mesmo tempo... aceito o "e" e não o "ou"... parece que estou sempre com pressa, sempre atrazada, e ficar em casa nem que seja por 1 dia já me dá uma crise de ansiedade!

e olha que ainda estou no início dos 20 e poucos.... só quero ver perto dos 30 hahaha

bjos
24/06/2009 17:17:43
Carol Teixeira
Que ótimo, Gabrieli! Mil obrigadas, fico super feliz de saber! :)
beijos
23/06/2009 22:01:33
Carol Teixeira
Que bom que tu escreveu, Sabrina! :)
Devia ter me cutucado sim!!! Da próxima vez fala comigo, eu vou adorar!
E, casulamente, o meu papo durante grande parte do almoço foi sobre esse assunto do post...
Obrigada pelas tuas palavras!
beijos
23/06/2009 21:58:28
Gabrieli
gabrielivargas@hotmail.com
Carol, tu me toca, sem duvidas, leio sempre teu blog desde que li verdades&mentiras foi uma leitura extraordinária, me encontrei e emocionei em cada página, então de uma coisa podes ter certeza, escreves maravilhosamente bem, tu és minha diva! Parabéns!
23/06/2009 19:20:54
sabrina
sabrinagasparote@hotmail.com
almoço
hoje, almocei perto de tí no suprem. vcs estavam bem atrás de mim..e por um segundo quase te "cutuquei" e disse: sei que és a carol e amo ler tudo que vem de tí. mas pensei ser algo cafonérrimo e um tanto constrangedor.
e, ao leur novamente teu blog, não hesitei em te deixar meu beijo com imenso carinho que com 32 anos e mentalmente não sei com quantos....posso te dizer que a preocupação de chegar nos trinta e poucos como eu...é incrivelmente caótico e ao mesmo tempo sublime. louco porém normal...sei lá.
é isso...
meu almoço foi maravilhoso. bjjj
23/06/2009 17:57:37
Nome

Email
Titulo
Comentário