Meu Escudo de Bronze
Nunca me dei bem com a realidade, com as regras, deveres e limites que o mundo tangível impõe. Talvez por isso desde pequena eu tenha me refugiado no belo mundo das artes. Era uma criança que desenhava muito, criava histórias, tocava músicas no meu pequeno tecladinho, escrevia e lia muito. Meu mundo inventado sempre foi muito mais interessante e sempre me salvou.
Agora, por exemplo, são cinco da manhã e eu estou aqui, acordadíssima, na minha usual insônia crônica, e a única coisa que me trouxe alguma calma foi ter lido um pouco e agora sentado na frente do computador para escrever. Me sinto no meu eixo, exatamente no lugar onde eu deveria estar, e as preocupações do mundo real – tipo “ tenho que dormir senão amanhã (hoje) estarei um zumbi “- se dissolvem.
Isso me lembra do escritor italiano Italo Calvino e de seu ótimo livro “Seis Propostas Para o Novo Milênio”. É a transcrição de um ciclo de seis conferências que ele deu em Harvard, em 1985, no qual ele fala de seis valores que mereciam ser preservados no próximo milênio. Para mim, a mais interessante é a primeira proposta: a leveza. Ali ele conta que quando começou a escrever, os escritores tinham como um imperativo categórico representar sua época. No entanto ele sentia uma diferença absurda entre os fatos que deveriam servir de material para sua escrita e o estilo que desejava seguir. Foi então que descobriu “o pesadume, a inércia, a opacidade do mundo”, características que, segundo ele, se aderem logo à escrita, quando não encontramos um meio de fugir delas. Daí ele fez uma analogia que eu adoro, disse que é como se a realidade fosse algo transformado em pedra, como se nada nela escapasse ao olhar inevitável e petrificante da Medusa. Na mitologia, o único herói capaz de decepar a cabeça da Medusa é Perseu, que voa com sandálias aladas. E para conseguir decepá-la sem se petrificar ele se sustenta no que há que mais leve – as nuvens e o vento – e olha para Medusa através da imagem que é refletida no seu escudo de bronze. Somente assim, através dessa visão indireta, ele atinge seu objetivo sem ser petrificado. Para Calvino, é dessa forma que o escritor vê a realidade petrificada do mundo em que vive: indiretamente. “É sempre na recusa da visão direta que reside a força de Perseu , mas não na recusa da realidade do mundo de monstros que estava destinado a viver”.
Me identifico completamente com essa idéia, pois a minha relação com a realidade é exatamente essa. Não a recuso, mas a olho indiretamente e o meu “escudo de bronze” é a escrita. Mas quando olho ao meu redor e vejo um excesso de vida real, sempre me espanto com o fato de que são poucas as pessoas que tem esse olhar indireto e isso é algo que eu questiono bastante. Porque acho que essa não deveria ser uma visão exclusiva dos artistas, todos podem escapar do olhar petrificante da Medusa, mas nem todos percebem que podem. Existem milhares de formas de voar e de deixar a vida mais leve, é só querer.
Essa crônica está tão bonitinha que merecia um final inteligente, com impacto, mas agora já são cinco e meia da manhã e as idéias se esgotaram. Vou ficando por aqui e deixando vocês com uma frase de outro italiano, o escritor Peppe Lanzetta: "Passo voando. Por quem não sabe que pode voar, quem não consegue mais, quem não quer voar."
Bom dia :)
04/05/2009 05:35:00
Carol Teixeira
Obrigada Karine!!! :)
beijos!
20/05/2009 15:54:16
Karine
karinesantana954@hotmail.com
Inspirador
Nossa carol!!Que maravilha isso que tu escreveu!Muito inspirador!Já passei para o meu blog!POucas pessoas conseguem passar essa inspiração e leveza que tu passa!Te admiro!
Beijos!
19/05/2009 16:43:04
Carol Teixeira
É verdade, Gisele! Nem me dei conta :)
Legal te ver por aqui!
beijos
14/05/2009 09:09:28
Gisele
giselefaresin@yahoo.com.br
Você a terminou com uma frase de impacto, mas ofuscada pela grandeza das idéias ali expostas, nem se deu conta disso.
“Existem milhares de formas de voar e de deixar a vida mais leve, é só querer.”
13/05/2009 19:53:21
Nina
pagar as contas e buscar a leveza da vida é realmente um desafio quem nem sempre a gente vence, mas vale sempre a tentativa. adorei o texto. beijos
10/05/2009 08:50:12
Carol Teixeira
Que bom Renata! fico muito feliz de saber :)
beijos
06/05/2009 11:24:22
Carol Teixeira
Hey, apple sister! haha
que bom que tu gostou, bianca!
beijos, até semana que vem
06/05/2009 11:21:59
Renata
rebazzanella@yahoo.com.br
Carol, tua inspiração me contagia e torna minha vida mais leve... obrigada por estar sempre me presenteando- surpreendendo com tua escrita!
Beijos
06/05/2009 08:17:00
Bianca Jhordão
Adorei! =)
beijo,
apple
05/05/2009 21:43:20
Carol Teixeira
Obrigada Robson! Legal saber que tu gostou!
05/05/2009 11:17:45
Robson
Carol,
Que texto lindo!!!
Continue nos presenteando com sua escrita privilegiada!!!
Bjs!!
05/05/2009 06:11:50
Carol Teixeira
Kiara, lê de novo essa parte do texto:
“É sempre na recusa da visão direta que reside a força de Perseu , mas não na recusa da realidade (...)"
Dá para pagar as contas e ao mesmo tempo buscar a leveza da vida.
04/05/2009 19:37:19
Carol Teixeira
Obrigada Beto!
Obrigada Rafa! :)
beijos
04/05/2009 19:34:48
Kiara Santos
whesseps@hotmail.com
Tudo muito interessante...
Mas na prática, como pagar as contas do fim do mês???
À proposito, já pensou se vc Carol não tem bipolar? Acho q tem tudo a ver.
Até,
Kiara
04/05/2009 15:38:05
Beto Canales
betopaidotomas@gmail.com
Excelente. Parabéns, Carol.
04/05/2009 15:16:23
Rafa
Ainda bem que seu mundo inventado se uniu com sua escrita para nos trazer arte&leveza, para nos ajudar a levantar vôo nos momentos em que as asas nos faltam.
Tanta coisa atrofiada em mim que volta a querer se mover com você, você que me traz uma vontade linda de.
04/05/2009 14:08:50
Carol Teixeira
Eu decepo a cabeça dela todo dia :)
beijos, querida
04/05/2009 13:32:50
Jana Lauxen
3am.jana@gmail.com
Medusa?
Que Medusa?
Aqui onde eu vivo ela não existe não!
Beijo Carol.
Tuas palavras são minhas também.
;)
04/05/2009 10:25:29